31.1.05

Um poema de presente

Walt Whitman (1819-1892)

1.

Out of the rolling ocean, the crowd, came a drop gently to me,
Whispering, I love you, before long I die,
I have travel’d a long way, merely to look on you, to touch you,
For I could not die till I once look’d on you,
For I fear’d I might afterward lose you.

2.

(Now we have met, we have look’d, we are safe;
Return in peace to the ocean, my love;
I too am part of that ocean, my love —we are not so much separated;
Behold the great rondure —the cohesion of all, how perfect!
But as for me, for you, the irresistible sea is to separate us,
As for an hour, carrying us diverse —yet cannot carry us diverse for ever;
Be not impatient —a little space— Know you, I salute the air, the ocean and the land,
Every day, at sundown, for your dear sake, my love.)


(Você sabe que é seu, moça bonita. Não só hoje, mas todos os dias.)

29.1.05

Sonho de consumo

Um botão de "foda-se", como na expressão "Fulano ligou o foda-se", mas apertável de verdade, com conseqüências. O ideal seria o botão do juízo final daquela vinheta do Homem-Pássaro no Cartoon Network (algumas vinhetas do canal são bem mais divertidas que os desenhos). O super-herói pede café ao Vingador, sua águia -e, é claro, o botão do café está junto ao do apocalipse. Eu apertaria os dois ao mesmo tempo, com força, não fosse a possibilidade de só receber meu café depois do fim do mundo. Prioridades, portanto: primeiro uma cafeteira elétrica decente, depois o fuck off amplo, geral e irrestrito. Oh, wouldn't it be nice?

28.1.05

Kindness of strangers

Nunca me apresentei a vocês? Muito prazer, Blanche DuBois.

Dizem que, lá nos Euá, algumas Blanches tentaram montar uma associação, um sindicato de angustiadinhas. Não deu certo. Elas se conheciam bem demais para se importar umas com as outras.

27.1.05

Por que o Brasil não pode ganhar nove Copas

Vocês conseguem imaginar alguém gritando "é ênea! É ênea!"? Seria a maneira mais fácil de nos tornarmos um país de fanhos ou de fãs daquela cantora new age. Mas o futebol brasileiro deve acabar bem antes disso. Logo, não há com que se preocupar.

26.1.05

Para cantar de manhã e à noite

Bury my body
Lord, I don't care where they
Bury my body
Lord, I don't care where they
Bury my body
'Cause my soul is gonna live with God
Oh-oh-oh-yeah

Lead me, Jesus, lead me
Why don't you lead me in the middle of the air
And if my wings should fail me
Won't you provide me with another pair
Please, God, I don't care where they-


("Da capo", de volta ao começo. E assim por diante.)

25.1.05

Vestígios de estranha civilização

Foi descoberto um sítio arqueológico na Penha, zona leste paulistana. A notícia é espantosa porque dá a entender que já houve em São Paulo algo semelhante a uma civilização. No local foram encontradas relíquias tupis, como fragmentos de cerâmica e um videotape do programa de Flávio Cavalcanti. Mais um pouco e os arqueólogos vão encontrar os restos mortais de frangos-com-farofa deixados por uns primos meus que moram por lá e são uma espécie de elo perdido. Ou aquela revistinha da turma da Mônica que deixei cair na privada em 1974 (estranhos eram os costumes dos habitantes da década de 70. Eu estive lá e sobrevivi às glaciações, mas confesso que não me lembro de muita coisa).

22.1.05

Oh, life is bigger

Leitor amigo, leitora amiga, aproxime-se que eu vou lhe contar uma coisa extraordinária. Sabe aquelas expressões do tipo "Fulano fechou o livro e foi viver" ou "Sicrana está lendo menos e vivendo mais", que você adora usar? Elas não têm comprovação científica.* Não existe nenhum relato sobre perda das funções vitais ou morte cerebral durante o ato de ler, mesmo quando se trata de um livro do Carlinhos Brown irlandês. Ninguém sai da vida para entrar numa estória do Guimarães Rosa. Mais: "viver", verbo ao qual você talvez acrescente uma exclamação, é coisa de gentinha -algo que amebas e planárias fazem tão bem quanto os seres humanos, não raro melhor. Como dizia aquele personagem de Villiers de l'Isle Adam: "Viver? Os criados farão isso por nós". Quem não tem grana para arcar com criados vive do jeito que pode. Mas que mérito há nisso? Você não acharia ridícula uma ameba cheia de si? Então.

Faz algum tempo, foi lançada no Brasil uma compilação de artigos jornalísticos de Mario Vargas Llosa chamada "A Linguagem da Paixão". Apesar dos problemas de tradução, que não são poucos, só o primeiro texto já vale o livro. O escritor peruano conta a história de miss Margaret Elizabeth Trask, que no início dos anos 80 deixou em testamento à Sociedade de Autores da Grã-Bretanha 400 mil libras, com a condição de que elas fossem usadas para premiar "histórias românticas". Ela mesma, Betty Trask, escreveu mais de 50 histórias assim até 1957. Morreu aos 88 anos, solteira e virgem, sem quase nunca sair de Frome, em Somerset, lugar onde fora criada. Aqui, dou a palavra a Vargas Llosa: "Quando falam de miss Trask aos repórteres de jornais e da televisão, os vizinhos de Frome fazem caras condescendentes e sentem pena da monotonia e da tristeza que devia ser a vida daquela reclusa que jamais convidara alguém para tomar chá. Os vizinhos de Frome são uns bobos, claro (...). Miss Trask teve uma vida maravilhosa e invejável, cheia de exaltação e aventuras. (...) Claro que evitava ter amizades e até conversações. Por que perderia seu tempo com gente tão banal e limitada como a vivente? O certo é que tinha muitos amigos; não deixaram que ela se chateasse um instante em sua modesta casinha de Oakfield Road e nunca diziam alguma coisa boba, inconveniente ou chocante. (...) O que muitos crêem ser uma extravagância -seu testamento- é uma severa advertência contra o odioso mundo que lhe coube e que deu um jeito de não viver".

Em resumo, caro leitor: se você quer gente de verdade, vá à ficção. O mundo está repleto de seres intoleravelmente unidimensionais.

* Sim, sei que "comprovação científica" é um argumento de larga aceitação entre filisteus. Et pour cause.

21.1.05

Antonio Candido peida?

O pessoal da Fefeleche e do caderno Menas! jura de pezinhos juntos que não. Para os pouquíssimos que o admitem, os peidos de AC são uma contribuição original e de extrema importância para a cultura brasileira, além de lindinhos e cheirosos. Asseguram, ainda, que ele é um crítico literário seminal, apesar dos rumores de que há tempos a pipa do AC não sobe mais. Acredito nisso, mas às vezes penso que uma ou outra coisa escrita pelo eminente intelectual seria evitada com o uso de uma boa fralda geriátrica.

20.1.05

E éramos todos antiaristotélicos

Tirinha desenhada por um amigo na época do meu colegial, que hoje se chama ensino mérdio (1987, por aí). Dois quadrinhos. No primeiro, o filho pergunta: "Pai, é verdade que toda historinha precisa ter um enredo?". No segundo, a resposta: "Não necessariamente, meu filho". Havia uma ainda mais vanguardista, em quatro quadrinhos. Nos três primeiros, um personagem gritava "viva eu" inúmeras vezes. No último, o segundo personagem, uma espécie de deus ex machina, dizia "vá tomá no cu" e matava o primeiro a tiros. E depois afro-americaninho vem me falar de James Joyce Pascowitch, Samuel Béquete, Jerry Seinfeld. Pois sim.

19.1.05

Um pouco de estatística

Segundo a Cepal, quatro entre dez habitantes da América Latina vivem em favelas. Sobram seis. Um se elegeu para algum cargo público, no qual cobra impostos de favelados e não-favelados sem lhes dar nada em troca. Outro faz filmes sobre favelas usando parte do dinheiro cobrado pelo primeiro. Os quatro restantes vão à urna para votar, ao cinema para bater palminhas e acham tudo lindjo.

15.1.05

Pergunta antropológica não ofende

O japonês é um índio que deu certo?

14.1.05

Ultimate intellectual fighting

Nunca fui muito fã de games, mas confesso que estou adorando jogar esse. Agora mesmo, coloquei o tarado e crítico teatral Kenneth Tynan para enfrentar o escritor russo e tarado Vladimir Nabokov. Quando o Nabo afirma coisas como "o propósito de um crítico é dizer alguma coisa sobre um livro, tenha ele lido ou não. A crítica pode ser instrutiva no sentido de dar ao leitor, inclusive ao autor do livro, algumas informações sobre o crítico, sua inteligência, honestidade ou ambas", Tynan retruca com "o escritor esquadrinha a vida, seleciona trechos e organiza-os em diálogos. Não se poderia dizer que ele age como o gari do crítico, varrendo os restos, as trivialidades e as redundâncias para oferecer a essência?". O quebra-pau está ótimo. Também já fiz Wittgenstein avançar com seu atiçador sobre Karl Popper e pus Chesterton e Bernard Shaw para lutar no gel. O único senão da versão brasileira é um bônus em que Nãolavo O. Carvalho usa seus superpoderes perenialistas para combater o Malvado Godzilla Comunista, ser que tem como traços físicos a careca do Emir Sade (pronuncia-se chadê: "no need to ask, he's a smooth operator..."), o corpinho de pêra da Marilena Shall-We e a barba do Leonildo Bofe. Os gráficos são uma merda e o jogo é boring to death. Eu não recomendo.

13.1.05

Grandes momentos da filosofia

"Batata não pensa; logo, não existe."

(Pichação cartesiana citada, nos comentários a um post antigo, pelo leitor Marcio Hack; achei que valia a pena destacá-la aqui. Kant talvez ponderasse que a batata-em-si é incognoscível, mas blogue não é lugar para discussões filosóficas assim solenes.)

12.1.05

Francis e o Grande Cabeção

Respeitável público, distintos leitores, vocês querem ver um wunderblogger admitindo que Paulo Francis escrevia besteira? Easy as 1-2-3, como diria um pré-púbere Michael Jackson. Claro que não me refiro às grandes verdades por ele enunciadas, como a de que os esquerdistas não tomam banho -esse é fato empiricamente comprovável por qualquer um que já tenha passado perto de uma convenção do petê (o cheiro de metano é muito pior do que aquele que emana das obras completas de Rubem Fonseca), e ademais o banho é explicitamente condenado por Cau Marques, como "hábito burguês", numa nota de rodapé suprimida de várias edições de "O 18 Brumário de Luís Bonaparte".

Refiro-me, isso sim, a bobagens como a que segue, extraída de "Trinta Anos Esta Noite", livro recentemente reeditado que trata do golpe de 1964: "Foi num estribo de bonde depois de dias de leitura de um mélange de filósofos, cotejando suas idéias com as teorias da Primeira Causa de santo Tomás de Aquino e o argumento de que só a fé vale, que vem de são Paulo Apóstolo e santo Agostinho até Kierkegaard, que cheguei à conclusão da inexistência de Deus". Waaal, um estribo de bonde não é o melhor lugar para alguém se convencer da existência ou da inexistência do Grande Cabeção: dá, no máximo, para compor obras-primas do folclore como a clássica "Esporrei na Manivela" ("subi no bonde, esporrei na manivela, cobrador feladaputa me jogou pela janela" etc.). Só se Francis, dostoievskiano que era, armou uma equação do tipo "se 'Esporrei na Manivela' existe, tudo é permitido; logo, Deus não existe". Pena que isso não esteja explícito no livro.

Outra bobagem era o preconceito antilusitano de herr Heilborn. Ele achava uma pena que Nassau e Duguay-Trouin tivessem sido expulsos da Botocúndia e acreditava sinceramente que seríamos melhores se colonizados por ingleses, holandeses ou franceses. Craro, Cróvis: seríamos uma grande Bangladesh, um Suriname gigante, um Haiti de dimensões continentais. Reconheço, porém, que até errado Francis era superior à mediocridade "cheia de razão" de seus críticos -e, parafraseando o que os argentinos dizem de Gardel, o caixa-d'óculos escreve ainda melhor a cada ano.

11.1.05

Pink Floyd na avenida Pompéia

Esse é mais um dos meus grandes projetos irrealizáveis -sobretudo porque a presença de Syd Barrett, babando no microfone, seria fundamental. Outro projeto inexeqüível: fazer Chico Buarque, Saramago e Niemeyer participarem de um abaixo-assinado para que o Frevo, aqui em São Paulo, passe a servir café. Ninguém negará que é uma causa muitíssimo mais nobre e urgente do que, por exemplo, o apoio ao Chávez, Chávez, Chávez. Mas sei que os dois fósseis só assinam esses manifestos se o Compositor Fanho assinar, e o Chico anda ocupado demais peidando. Paciência.

10.1.05

Jukebox goiabal

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Partilho com vocês minha trilha sonora desta segunda-feira: Screamin' Jay Hawkins, herói deste blogue, e sua música mais conhecida, "I Put a Spell on You" -que acabou virando um standard, gravado por Nina Simone e usado em filmes como "Stranger than Paradise", do Jim Jarmusch. Ele tem outras músicas talvez melhores, mas essa é, in my humble opinion, a melhor gravação bêbada de todos os tempos. Como bônus, aí em cima, uma foto de Hawkins, pai de pelo menos 57 filhos (é sério -leia aqui), em seu traje típico, tirada do ótimo site All Music Guide.

9.1.05

Cole Porter caiu do cavalo

Se não me engano, foi o Dante que escreveu, faz pouco tempo, que bastam três linhas de um livro para saber se ele é bom. Não estou bem certo de que isso funcione com livros -podemos pôr os olhos, por acaso, nas únicas três linhas que prestam em toda a obra-, mas a experiência me ensinou que, com filmes, isso não falha: bastam cinco segundos para ter uma idéia do grau de ruindade. Não raro, nem é preciso ver. É óbvio que uma cinebiografia de Cole Porter que chame Alanis Morissette e Sheryl Crow para relinchar em suas músicas não tem como ser boa -não há hipótese. Que o espírito de Ella Fitzgerald persiga essa gente per omnia saecula saeculorum.

Aproveito para fazer duas modestas propostas para o cinema neste milênio. Nos filmes americanos, é preciso colocar um funcionário de hospital psiquiátrico, com camisa-de-força, em todos os filmes com Dennis Hopper ou Jessica Lange, que devem ser recolhidos ao pinel antes mesmo que emitam sua primeira fala. E, nos nacionais, decretar a prisão preventiva de Chico Diaz assim que ele entrar em cena -quando ele aparece, já se sabe que alguma vai aprontar.

7.1.05

Contra flatos não há argumentos

Cada vez que entro no Turko, fico um pouco mais espantado com aquilo de que o ser humano é capaz. De longe, a coisa mais chocante que vi por lá é o nome desta comunidade para a qual fui convidado: "Chico Buarque peida". Pergunto: como é possível uma coisa dessas? Agora só falta me dizerem que ele também caga. Este mundo está perdido. (De todo modo, recomendo uma visita ao César, que analisa a obra do Compositor Fanho sob o prisma das violações à Convenção de Genebra. E vamos botar água no feijão.)

6.1.05

O poblema do diproma: uma proposta atrás

Todo final de ano, o sindicato da minha catchigoria profissional entra em negociação para tentar arrancar do senhor Burns alguns caraminguás. O último boletim sobre as negociações parece ter sido escrito por Homer Simpson em pessoa: você vai lendo e, a certa altura, descobre que "a nova proposta [do senhor Burns] TRÁS um aumento real irrisório". Você, que é uma alma caridosa, concede o benefício da dúvida, mobiliza toda a sua boa vontade, pensa consigo "deve ser erro de digitação" etc. Porém (ai, porém), logo na linha de baixo, de novo, para não deixar dúvida: "a proposta TRÁS, ainda, uma participação nos lucros e resultados de X". Estou vendo o patrão do Homer rindo entredentes e dizendo que, para analfabetos, o "aumento real irrisório" está de ótimo tamanho (é claro que o senhor Burns também não sabe ler, mas ter a chave do caixa lhe basta). Concordo que é preconceituoso achar que os jornalistas são obrigados a saber ler e escrever -mas, se é assim, por que essa gente insiste em exigir diproma de faculdade de jornalismo de quem quer trabalhar na imprensa? Só ensino bundamental e mérdio já estaria bom demais. Lamento o tempo que perdi com todos aqueles pentelhos da universidade púbica.
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5.1.05

Clube dos desesperados fotogênicos

Falei no Béquete e me esqueci de dizer: o que mais admiro nele é o talento para, mesmo atormentado pela angústia e pela essencial incomunicabilidade do ser humano ("ai, Creuza", como diria o ASS), manter sempre seus cabelos em cuidadoso desalinho. Não dá para deixar de pensar algo como "puxa, esse pessoal angustiadinho é mesmo fotogênico". Vale o mesmo para Cioran: a decomposição, um dos temas preferidos do ensaísta, afetará tudo, menos o registro fotográfico da sua bela cabeleira. Felizes aqueles para quem o desespero existencial funciona melhor que xampu Colorama. E ai de quem, como eu, vai ao espelho quando acorda e vê um mix da Medusa do Caravaggio com o Urso do Cabelo Duro.

4.1.05

Cartão de boas-festas para políticos

"Desejo a todos uma vida atroz e, depois, os fogos e gelos do inferno e um nome honrado entre as execráveis gerações que virão." (Sim, é Béquete no comecinho de "Malone Morre", na tradução de Paulo Lemingue. O "nome honrado" é um exagero de generosidade que o espírito do ano novo talvez -talvez- justifique.)

3.1.05

Um pedido para o ano que se inicia

Uma catástrofe natural do bem. Só umazinha. Exemplo fácil: um tsunami que jogasse o país todo na Finlândia ou na Suécia, chacoalhando o mínimo possível (se alguns políticos morrerem no trajeto, porém, não será nada mau). Índice de Desenvolvimento Humano lá em cima, welfare state, louras escandinavas e revistas pornô à vontade, já pensaram? Calor é coisa de gente subdesenvolvida -mad dogs and Brazilian men go out in the midday sun. Quanto a mim, mais uma vez, canto com Lulu Santos: "Garota, eu vou pra Gotemburgo, viver a vida sobre os fiordes...".