3.8.05

Goiaba Jazz Gallery

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Houve um tempo em que era impensável alguém usar um nome como Arnold Schwarzenegger e ter chances de sobrevivência no showbiz (termo que inclui, ça va sans dire, a política). A nova-iorquina filha de croatas Jelena Ana Milcetic (1930 - ) certamente sabia disso quando, no início de sua longa carreira, decidiu se transformar em Helen Merrill. É raro que alguém se lembre de Merrill quando pensa em "grandes cantoras de jazz", expressão que costuma ficar restrita, injustamente, à santíssima trindade Ella-Billie-Sarah; nem ela, longe dos Euá por longos períodos, obteve algo remotamente parecido com sucesso no nível de Sinatra ou Nat King Cole. Os músicos, porém, sempre souberam que miss Merrill batia um bolão. A lista dos que a acompanharam é quase uma história concisa do jazz da década de 40 em diante: Charlie Parker, Miles Davis, Bud Powell, Earl Hines, John Lewis, Stan Getz, Clifford Brown, Bill Evans e uma extensa lista de etcéteras. Foi ela que, em 1956, tirou Gil Evans da semi-obscuridade, antes que o arranjador gravasse três dos melhores discos de Miles Davis; e foi para ela que Evans fez, em 1987, um de seus últimos trabalhos.

No fim dos anos 60, em parceria com o pianista Dick Katz, Merrill gravou suas prováveis obras-primas: "The Feeling Is Mutual" e "A Shade of Difference". Cercada, mais uma vez, por craques (os irmãos Thad e Elvin Jones, Jim Hall, Ron Carter, Richard Davis), ela fez dois álbuns tão imunes ao sarampão roqueiro da época quanto inovadores na escolha do repertório e nos arranjos: até hoje, raras são as cantoras que se aventuram por territórios como o do free jazz de Ornette Coleman ("Lonely Woman"). Mesmo cavalos-de-batalha do tipo "My Funny Valentine" soam diferentes, novos; nesse caso, o arranjo não é mais que um bate-bola improvisado entre Merrill e o baixo de Ron Carter. E nos dois discos há, sobretudo, beleza -a rare thing, mes semblables, mes frères. Divido um pouco dessa boniteza com vocês nas duas músicas que pus aí embaixo, ambas do "A Shade of Difference", ambas compostas pelo grande (e menos conhecido do que merecia) Alec Wilder: "While We're Young" e "Where Do You Go?". Peçam silêncio às coisas em volta, ao mundo barulhento, e ouçam.











Aqui vão, como de costume, as letras das músicas.

1.

Songs were made to sing while we're young
Every day is Spring while we're young
None can refuse, time goes so fast
Too dear to lose and too sweet to last
Though it may be just for today
Share our love we must while we may
So blue the skies, all sweet surprise
Shines before our eyes while we're young


2.

Where do you go when it starts to rain?
Where will you sleep when the night time comes?
What do you do when your heart's in pain?
Where will you run when the right time comes?
These are the things that I want to know
Where will you hide when the lights are low?
Where do you go when it starts to rain?
Where will you sleep when the night time comes?