20.5.05

A consolação da filosofia

Houve uma época em que eu pegava todo dia o ônibus da linha barbárie-decadência, ida e volta. Gente espremida, ar irrespirável e o trajeto mais feio do Ocidente. Na minha ignorância geográfica, eu acreditava que o caminho era o mais longo possível para evitar a exposição dos passageiros ao risco de um pneu furado bem no meio da -Deus nos livre- civilização. Até o dia em que conversei um pouco com o motorista e ele me explicou, enquanto coçava a orelha com a unha compridona do mindinho, que aquele era um circular, igualzinho ao da cidade universitária: não saíamos nunca da barbárie. Fiquei chateado, mas por pouquíssimo tempo. Hoje, ando sempre perto da janela do bumba e estico o braço direito para fora, exibindo aos passantes meu dedo médio fantasiado de Kant. Às vezes, grito "pega na coisa-em-si e balança". É divertido.