30.4.04

Eu sou dono da verdade

E tenho a nota fiscal para provar. Paguei por ela durante quase 34 anos, em nada suaves prestações. Troco-a, de ótimo grado, por mentiras simpáticas ou por um Monza 86 com menos de 70 mil quilômetros. Alguém chame a Granero e leve essa verdade para bem longe daqui. Human kind cannot bear very much reality.

(Créditos para T.S. Eliot, a quem devo a frase final, e Dani Meirelles, de cujo blogue roubei a idéia do post. Escreva mais, Dani.)

28.4.04

Lerê, lerê, lerererererê

Tenho escrito pouco porque Rubens De Falco e seu chicote andam fazendo hora extra por aqui. Enquanto não há textos novos, vocês podem cantar com Aracy de Almeida esta delicada versão de "O Orvalho Vem Caindo", clássico samba de Noel Rosa, extraída do livro "Sessão Passatempo", de Hermínio Bello de Carvalho. Não ofereço déish pau, mas também prometo não apertar a campainha enquanto vocês cantam. Sigam a bolinha imaginária, crianças.

O ovário vem caindo
Vai molhar o meu tetéu
E também vão surgindo
Mais estrelas lá no céu
Tenho passado tão mal
Ando limpando minha bunda com jornal
Meu cortinado é um vasto céu de anil
E o meu despertador é o guarda-civil
E vão prasputaqueospariu!

24.4.04

O trocadilho é a forma mais baixa de humor

Vocês já devem ter ouvido falar da boate The Gaza Strip, que é o lugar mais hot-hot-hot do Oriente Médio. Só em seus ousados shows lindas terroristas muçulmanas suicidas fazem o "full monty", tirando tudo. Elas despem a burca, os apetrechos de castidade, o sutião e a calçola -deixam só o pino da granada para os fregueses tirarem, o que eles, já enlouquecidos, fazem sem hesitar. É um estouro. (Desnecessário dizer que a granada fica escondida em uma parte mais recôndita da anatomia das strippers de Alá.)

Há também os índios da tribo cinta-liga. Sua reserva fica em cima de uma área de extração de diamantes, turmalinas, ônix, ametistas e outras pedras podres de chiques. A caça é abundante -muitos veadinhos circulam por ali-, assim como a coleta, graças às árvores frutíferas que dão sapatos Manolo Blahnik e DVDs de "Queer as Folk". Os poucos garimpeiros que se aventuram a entrar na área dos cintas-ligas são comidos. Alguns saem com arranhões e marcas de dentadas na nuca; outros, porém, curtem a experiência e decidem ficar para as outras refeições. Ai, que loucura.

22.4.04

A femana do previdente

Segundo os jornais de hoje, o Efelentífimo começou uma "ofensiva de marketing" na mídia, para tentar fazer a pipa do vovô e seus índices de popularidade subirem. Curiosamente, eles não deram a programação completa, que você lê com exclusividade aqui. Fontes fidedignas informam que nosso querido presidente participará de um quebra-pau, no Ratinho, com Palóffi, Malan, Delfim Netto e o Consenso de Uóxtom se estapeando para atribuir uns aos outros a paternidade da política econômica (com a trilha sonora dos gritos de "vou fazer DNA!" do apresentador bigodudo). No programa de Raul Gil, Efê não tirará o chapéu para o desemprego (oooohhhh!). No show de horrores de Fausto Silva, o supremo mandatário ocupará o quadro "Se Vira nos 30" resolvendo o problema da fome no mundo em 30 segundos. Por fim, será recebido por Silvio Santos para um "Domingo no Parque" especial. Entrará no foguete, colocará fones de ouvido -e, quando a luz vermelha se acender e o Patrão perguntar "mas-mas-mas, Lula, você troca a Presidência da República por um prato de frango com polenta e uma garrafa de Malzbier?", responderá "SIIIIIIIIIM!".

21.4.04

Jogado a seus pés, eu sou mesmo Zé Geraldo

Isto não é um post. É apenas um pretexto para usar esse trocadilho imbecil como título. Mas pode ter alguma serventia: cansei de ser confundido com o Pedrinho Mattar e vou achar legal se algum leitor me pedir para cantar "Milho aos Pombos". Sempre detestei bicho-grilice, mas há algumas coisas nesse universo que me enternecem -o bigode do Zé Geraldo, a mistura de Antônio Conselheiro com LSD que atende pelo nome de Zé Ramalho, o cabelão do Guarabyra, o blogue do Alexandre. Estou certo de que todos são uns sujeitos bacanas, desde que não cantem "Espanhola" nem "Admirável Gado Novo" a menos de cinqüenta jardas do meu ouvido. Um dia, para mostrar que amo este Brasilzão de meu Deus e sou wunderblogger, mas sou limpinho, ainda hei de interromper uma apresentação da Sinfônica do Estado, aquele bando de elitistas, gritando "toca Raul!" no meio do solo de violino.

20.4.04

Povo é estranho quando você é um mais estranho

Não entendi bem essa nova onda, já divulgada por inúmeros blogues, de abrir um livro na página 23 e citar a quinta frase encontrada. Não leio livros, só encartes de CDs -e, graças a Deus, nenhum deles chega à 23ª página (na verdade, o de "Ellington at Newport" quase chega lá. É gordinho e precisa fazer uma dieta para ser retirado da embalagem de plástico). Aliás, se eu fosse um desses "dez filhadaputa que lê livro", na feliz expressão do vocalista do Charlie Brown Jr., faria como o Efelentífimo e não passaria da página 17. Está certo ele. Nenhum livro ensina a "arte de governar", com a possível exceção de "The Pleasures of Sodomy", que já folheei e recomendo, pelo didatismo das ilustrações.

O problema é que as pessoas olham atravessado quando você confessa esse tipo de coisa. Não posso sair de casa sem que tope com blogueiros cochichando um para o outro "ih, alá o cara que só lê encarte de CD". Também sou vítima de preconceito por nunca ter deixado tirarem uma foto minha -fotos são malignas, roubam sua alma, você sabe- e jamais ter me olhado no espelho. Como não sei qual é a minha cara, ao entrar no Turko, coloquei no álbum de fotos do site algumas outras caras que me pareceram bonitas e representativas, de Agnaldo Timóteo ao Trio Los Angeles. Não está funcionando para atrair as fêmeas (pelo menos, não tão bem quanto o desodorante Avanço), e acho que a culpa é da minha orientação sexual declarada -"straight", coisa reacionária e sem graça. Tomara que o Turko reveja seus conceitos e passe a aceitar a expressão "pansexual". Com essa classificação e uma foto do Zé Celso pelado, estou certo de que meu perfil ficará irresistível.

19.4.04

Pequena antologia goiabal

Elizabeth Bishop (1911-1979)

The still explosions on the rocks,
the lichens, grow
by spreading, gray, concentric shocks.
They have arranged
to meet the rings around the moon, although
within our memories they have not changed.

And since the heavens will attend
as long on us,
you've been, dear friend,
precipitate and pragmatical;
and look what happens. For Time is
nothing if not amenable.

The shooting stars in your black hair
in bright formation
are flocking where,
so straight, so soon?
-Come, let me wash it in this big tin basin,
battered and shiny like the moon.


("The Shampoo", de "A Cold Spring", 1955. Há uma boa tradução desse poema para o português, feita por Paulo Henriques Britto, mas estou com uma preguiça danada de transcrevê-la. Desculpaê.)

16.4.04

Cem anos da Revolta da Vacina

Depois dizem que o Bananão não tem tradição libertária: em novembro, se não estou enganado, completam-se cem anos da eclosão da Revolta da Vacina no Rio. É um marco na luta do indivíduo pelo direito de ter varíola -a cara de areia mijada, afinal, era uma expressão de liberdade- e contra o Estado vacinador e opressor, ao qual basta você dar o braço para que ele avance no seu brioco (tradição, como sabemos, sempre renovada). Que os libertários deste país se lembrem com carinho desse momento histórico. Vivam as ratazanas -e pau na bunda do Oswaldo Cruz.

15.4.04

Volodya é um bom companheiro

Faz poucos dias, a coluna do Bernhard Carvalho na "Falha" citou um texto do caçador de lepidópteros que não resisto a reproduzir aqui. Resume o que penso sobre literatura e faria um bem enorme à humanidade se fosse lido, por exemplo, por essa gente que gosta do Bocóvski (claro, se eles fossem alfabetizados, o que aparentemente não é o caso). Transcrevo: "A literatura não nasceu no dia em que um menino gritando lobo!, lobo! veio correndo do vale de Neandertal com um grande lobo cinzento no seu encalço: a literatura nasceu no dia em que um menino veio gritando lobo!, lobo! e não havia lobo nenhum atrás dele (...). Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de história verídica é um insulto tanto à arte quanto à verdade". (A propósito, se você lê em inglês, esvazie os bolsos e compre as "Complete Stories" do Nabokov -contêm todo o charme, o suingue e o veneno do russo tarado. Vá escrever bem assim lá em São Petersburgo.)

14.4.04

Barba de abelhas é civilização

Continuo minha campanha para que a ONU substitua aquele Índice de Desenvolvimento Humano (como diria o velho "Estadão", "há tempos este blogue vem advertindo o senhor Kofi Annan...") por indicadores mais precisos das riquezas e misérias no globo. Um deles, já abordado aqui, é a opulência do mau gosto dos programas de auditório, método seguro para saber se um país está ou não no Primeiro Mundo -ou vocês, por acaso, sabem quem é o Silvio Santos de Serra Leoa? Outro indicador do desenvolvimento e da pujança de uma nação: mortes de roqueiros por overdose. Recentemente, meus estudos revelaram um terceiro índice de riqueza, a meu ver infalível: concursos de barba de abelhas.

Vocês já devem ter visto na TV essa que, ao lado do antigo "Gong Show", é a mais importante manifestação cultural dos Euá: uns sujeitos do Meio-Oeste lambuzam a cara, soltam um enxame de himenópteros em cima e concorrem para ver quem fica com a maior barba de abelhas. Convenhamos: os concursos de barba de abelhas só são possíveis numa terra de abundantes riquezas, cheia de abelhas e mel, onde ninguém precisa trabalhar e os desocupados matam o tempo da maneira mais cretina possível.

E os blogues nada mais são do que um grande concurso de barba de abelhas virtual. Admitam, amigos blogueiros. Vocês, como eu, também lambuzam a cara esperando que um monte de abelhinhas apareça nas caixas de comentários. De vez em quando, algumas delas picam sua bunda, mas nada que obscureça a felicidade de ter a maior e mais bonita barba de abelhas da Blogolândia. Otimista, concluo que estamos mais perto do Primeiro Mundo do que pensávamos: o Brasil só precisa de mais programas de auditório e roqueiros morrendo de overdose. Que mané urânio, que nada.

13.4.04

Tem dia que de noite é fogos

"Blogare stanca", como diria o Cesare Pavese se estivesse vivo, fosse blogueiro e morasse na Mooca. Em certas épocas, é duro espremer Hans e Fritz, meus dois neurônios germânicos, para escrever algo aqui. Mas o ambiente cultural da Botocúndia é naturalmente laxativo e propício à expressão de idéias sem serventia alguma. É só fazer um pouquinho de força que elas saem; algumas até viram teses, elegem políticos ou vendem cerveja.

Então, falemos de literatura. Shakespeare disse, quase no final daquela peça-que-se-passa-na-Escócia-e-cujo-nome-o-pessoal-de-tchiatro-evita-dizer-porque-acha-que-dá-azar, que a vida era "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada". Aí vem o William Faulkner e escreve "O Som e a Fúria", romance cujo primeiro capítulo é narrado -ora, vejam só- por um idiota, Benjy (e a narrativa é tocante, de verdade. Não li tudo do Faulkner, mas acho que ele é como um vinho às avessas -quanto mais moço, melhor). Fico pensando se o Bardo tivesse escrito, simplesmente, que a vida é uma merda. Vocês imaginam a obra-prima que seria um romance narrado do ponto de vista do tolete?

Na verdade, eu não só consigo imaginar como já li alguns. Literatura brasileira contemporânea é, com as exceções de sempre, um caso para a Vigilância Sanitária. Se eu fosse o Alfredo Bosi, renunciaria à Academia para gerenciar a Desentupidora Rola Bosta. Presumo que seja um trabalho bem menos insalubre.

7.4.04

Hey, Mr. Lingerie Man, play a song for me

"Você compraria uma marca de lingerie anunciada por Bob Dylan?"
"Ah, só se ele aparecesse vestindo."

(Pausa para o leitor chamar o Hugo, o Juca, o Raul e quem mais lhe convier.)

6.4.04

Grandes oportunidades perdidas

Eu já tomei o mesmo elevador que Antônio Carlos Magalhães. Foi há mais de dez anos, quando comecei minha carreira de brilho ("eu já falei que tá na meeente") no jornalismo. O coroné ficou de costas para mim por quatro andares. É verdade que ele foi magnânimo comigo e não peidou, mas me arrependo até hoje de não lhe ter passado a mão na bunda. E eis aqui mais um axioma, que atualiza aquele slogan do tempo em que os cassetas tinham graça: "Democracia é passar a mão na bunda do ACM". Puragoiaba também é ciência política e faz Max Weber requebrar na tumba.

3.4.04

Excesso de informação

Deixe-me ver se entendi: Waldomiro Diniz, pai de Maria Clara Diniz, é acusado de pôr as bombas naqueles trens em Madri, embora as suspeitas iniciais apontassem para Baiano Meloso, autor daquela música que fala em "eta, eta, eta". Meloso, por sua vez, acabou de lançar um disco só com músicas de Morris Albert vertidas para o djavanês, com José Serra nos backing vocals. Serra, por seu turno, é suspeito de envolvimento com Rodrigo Santoro no último grande escândalo do governo, as gravações clandestinas do Big Brother -que, segundo a Polícia Federal, também mostram Waldomiro Diniz tomando banho de cachoeira. Bingo! O círculo se fecha. Ou será que eu perdi alguma coisa?