30.9.03

SANTAS SALAMANDRAS, BATMAN!

Comprei faz pouco e estou começando a ler a "Legenda Áurea", de Jacopo de Varazze -talvez o mais conhecido relato sobre as vidas de santos, escrito no século 13 e lançado recentemente pela Companhia das Letras, em tradução de Hilário Franco Júnior. Em verdade vos digo: é um barato. Tem mais sex and violence que qualquer filme do Tarantino e um monte de ótimas sugestões para nomes de crianças (se bem que meu filho desistiria de nascer se apenas desconfiasse que eu pretendo batizá-lo como Pancrácio).

Uma coisa de que poucos se dão conta -e o livro deixa clara- é a importância social dos santos. Quando não havia saneamento, distribuição de cesta básica ou programas de renda mínima, o povo se lascava se não houvesse um santo à mão para multiplicar pães e peixes. Veja-se o que diz a "Legenda" sobre uma das interpretações para os presentes dos Reis Magos a Jesus: "Eles ofereceram ouro à bem-aventurada Virgem para aliviar sua miséria, incenso para afastar a fetidez do estábulo, mirra para fortalecer os membros do menino e para expulsar insetos hediondos". Há outras explicações mais poéticas, mas essa comprova que os Magos eram, simultaneamente, o Fome Zero e a D.D. Drin daqueles tempos remotos. Como pode haver gente que não crê nessas coisas, mas acredita no Pereio? Francamente.

29.9.03

SOMBRAS DE UM PASSADO VERGONHOSO

Fiquem sabendo: enquanto eu viver, jamais permitirei que se republiquem os posts que escrevi no período, felizmente curto, em que me assinava Ruy Goiaba Racional. Não gosto nem de me lembrar dessa época, daquelas batas brancas que não combinavam com minha barriga e da ansiedade enquanto eu esperava que os extraterrestres descessem em Nova Iguaçu. O que me salvou foi não conseguir agüentar a abstinência de séquiço, guaraná, suco de caju, goiabada para sobremesa e discos de Agnaldo Timóteo (sim, Timóteo saved my life). Reconheço que meus textos dessa época tinham um certo balanço, mas não importa: espero que ninguém os resgate do limbo virtual para vendê-los a R$ 250 nos sebos.

28.9.03

PEQUENA ANTOLOGIA GOIABAL

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

Senhor: é mais que tempo. O verão foi muito intenso.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e por sobre as pradarias desata os teus ventos.

Ordena às últimas frutas que fiquem maduras,
dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor,
leva-as à completude e não deixes de pôr
no vinho pesado sua última doçura.

Quem não tem casa não a irá mais construir.
Quem está sozinho vai ficá-lo ainda mais.
Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais
e correr as aléias num inquieto ir-e-vir
enquanto o vento carrega as folhas outonais.


("Dia de Outono", 1902. Tradução de José Paulo Paes.)

26.9.03

RÉQUIEM PARA UMA DÉCADA

Gente, o Robert Palmer morreu. Vocês têm idéia da tragédia geracional que isso representa para quem adolesceu nos anos 80? Nessa época, tudo o que eu queria da vida era meia dúzia de mulheres vestidas de preto, com as looongas pernas à mostra, fingindo que tocavam alguma coisa enquanto eu, de terno, cantava "might as well face it, you're addicted to love". Não que eu tenha uma visão idílica desse tempo em que gigantescos répteis como Sarney e Quércia caminhavam sobre a terra. O terrível é que meus pontos de referência estão desaparecendo: agora, só falta o Matthew Broderick aparecer com o cabelo todo branco. De todo modo, assim como meu caro Inagaki, acredito que ainda há esperanças: só Luciana Vendramini poderá nos salvar do limbo.
DAS OBRAS DE AFONSO HENRIQUES DE LIMA GOIABA

"O homem que sabia djavanês", capítulo 2 (final)*

Eu estava tenso com a pergunta do doutor Albernaz. Tantas músicas do DJ Avan e o velho tinha de querer saber o que significava a letra de "Obi"? Desgraçado. Se ainda fosse aquela do amor que é azulzinho... mas era tarde. Ele tinha os olhos fixos em mim: queria respostas. Todo o sucesso da minha empreitada dependia de uma explicação convincente e imediata.

De repente, uma idéia. Começo: "Veja bem. 'Obi' é certamente uma referência a Obi-Wan Kenobi, o sábio de 'Guerra nas Estrelas' interpretado por sir Alec Guinness. 'Obá', por sua vez, remete a 'Djobi Djobá', sucesso dos Gipsy Kings. DJ Avan buscou contrastar o lado luminoso e britânico da força com os mistérios nômades da alma cigana. A mesma tensão dialética pode ser verificada no verso subseqüente, 'que nem zen, czar': a contemplação espiritual dos monges budistas e o poder absoluto dos czares. Perceba como tese e antítese se resolvem lindamente na síntese do verso seguinte: 'shalom Jerusalém' é a paz do espírito na divina cidade. É ela que faz a alma se elevar aos céus, como um pássaro ('z'oiseau')".

Os olhos do doutor Albernaz se arregalaram enquanto eu falava. Dois segundos depois de eu terminar, ele gritou: "Que maravilha! Sabia que havia algo de muito profundo nessa letra! O senhor é um gênio da hermenêutica, um mestre do djavanês!". Passei a tarde inventando explicações para todas as outras letras do CD -açaí guardiã, Kremlin-Berlim-pra-não-dizer-Tel-Aviv, índio cara-pálida cara de índio. Citei Joyce, Pound, Oswald, Glauber, Zé Celso, Hélio Oiticica e Odair Cabeça de Poeta: name-dropping é comigo mesmo.

Daí por diante, minha ascensão social estava garantida. Eu era o único intelectual do país capaz de traduzir a transcendência da linguagem de DJ Avan e Carlito Marrón. Tinha prestígio acadêmico e subsídio do Ministério da Cultura; gostosíssimas estudantes de lingüística rasgavam as roupas e se atiravam aos meus pés. Mas troquei tudo por um violão, sandálias de couro cru e um penteado novo. Mudei até meu nome graças ao djavanês. Hoje me chamo Jorge Vercilo e sei que nada vai me fazer desistir do amor.

* Com a colaboração de Artur, Rômulo e Camila (a única com link).

25.9.03

DAS OBRAS DE AFONSO HENRIQUES DE LIMA GOIABA

"O homem que sabia djavanês", capítulo 1

Eu tinha chegado fazia pouco ao Rio de Janeiro e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro. Até que um dia, lendo "O Globo", deparei com este anúncio: "Precisa-se de um professor de djavanês". A audição das músicas de DJ Avan sempre provocou em mim puro mal-estar físico -mas, enfim, eu precisava de grana e decidi fazer o possível para vencê-lo. Naquela semana, fui a todos os barzinhos com música ao vivo da cidade. Perdi a conta de quantas vezes escutei "e o meu jardim da vida ressecou, morreu" ou "amar é um deserto e seus temores". Foram sete dias de tortura; contudo, saí deles com o djavanês na ponta da língua.

Em vez de mandar meu currículo, achei que conviria visitar o endereço indicado no anúncio. Era um tríplex de cobertura, decorado com muito dinheiro e mau gosto ainda maior, num dos bairros mais caros do Rio. Apresentei-me como professor de djavanês e, após ser submetido a inquérito pelos empregados, fui levado à presença do patrão, o doutor Albernaz. Ele me recebeu com um sorriso visivelmente irônico. "Então o senhor é professor de djavanês, hein?" "Sim, sou. Formado em djavanês e com mestrado em beregüê. Tive dez com louvor na minha tese sobre a influência de Carlinhos Brown na obra de James Joyce." A tese, obviamente, não existia, mas o doutor Albernaz pareceu acreditar na conversa. "Então, só o senhor pode me ajudar. Ouça isto, por favor" -e pôs nas minhas mãos uma coletânea do DJ Avan em CD.

Ao notar minha cara de ponto de interrogação, ele contou sua história. "Pouco antes de morrer, meu pai me entregou esse CD e disse: 'Filho, tenho certeza de que DJ Avan canta coisas muito profundas, mas ouvi suas músicas durante anos e nunca consegui entender porra nenhuma. Só podem ser segredos iniciáticos transmitidos da maneira mais hermética possível. Descubra o significado e você obterá a chave da felicidade'." O doutor Albernaz abriu o encarte do CD e me mostrou uma das letras: "'Obi, obi, obá. Que nem zen, czar. Shalom Jerusalém, z'oiseau'. O que é isso?".

(Continua amanhã.)

24.9.03

O MUSEU DAS GÍRIAS

Pouca gente sabe, mas existe um museu para onde são levadas as gírias e expressões que ninguém mais usa na fala cotidiana. Sem subsídio de governo algum, ele é sustentado unicamente pelo amor da sua idealizadora, a senhora Hypotenusa Pereira, por palavras injustamente relegadas à lata de lixo do vernáculo, como "boko-moko". Na última vez em que estive lá, dona Hypotenusa me mostrava justamente um deles. "Olhe só, meu filho. Encontrei esse 'boko-moko' embrulhadinho na soleira da minha porta, todo tremendo de frio, coitado. Cuidei dele com muito carinho, elixir paregórico e emulsão de Scott. Ele ficou forte e pimpão; agora, passa o dia todo brincando com o 'tranchã' e o 'vivaldino'."

Aproveitei para perguntar: "Quem são os principais visitantes do seu museu, dona Hypotenusa?". "Ah, os dicionaristas. Às vezes aparece gente de televisão, sobretudo quando se faz alguma adaptação do Nelson Rodrigues. Eles sabem que só aqui encontram 'espeto', 'batata' e 'pitéu' em ótimo estado de conservação." Eu mesmo já recorri ao museu numa vez em que peguei emprestada a expressão "da paróquia" para uma historinha que não deu muito certo ("a mulher do padre, a última a chegar, foi queixar-se ao bispo; o bispo ouviu a queixa e achou que aquilo era a maior sacanagem da paróquia". Riam, por favor). Se você quer ajudar o museu da dona Hypotenusa a sobreviver, aproveite a riqueza que ele oferece. Por exemplo, dizendo que este blog é do balacobaco. ;)

23.9.03

GRANDES MOMENTOS DO KITSCH

She may be the face I can't forget,
A trace of pleasure or regret,
May be my treasure or the price
I have to pay
She may be the song that summer sings,
May be the chill that autumn brings,
May be a hundred different things
Within the measure of a day.

She may be the beauty or the beast,
May be the famine or the feast,
May turn each day into a heaven
Or a hell
She may be the mirror of my dream,
A smile reflected in a stream,
She may not be what she may seem
Inside her shell.

She who always seems so happy in a crowd,
Whose eyes can be so private and so proud,
No one's allowed to see them when they cry.
She may be the love that cannot hope to last,
May come to me from shadows of the past,
That I'll remember till the day I die.

She may be the reason I survive,
The why and wherefore I'm alive,
The one I'll care for through the rough
And rainy years
Me, I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is she
Sheeeeeeee


(Sim, crianças, "She" -ou, em francês, "Tous Les Visages de l'Amour"-, de Charles Aznavour e Herbert Kretzmer, a música-para-cantar-no-banheiro preferida de Robert Smith. Esqueçam a versão que Elvis Costello gravou para aquele filme com a Julia Roberts -legal mesmo é Aznavourzão esticando os eles com seus sotaque franco-armênio. Aguardem, nesta seção, o melhor da cafonice francófila, de Joe Dassin a monsieur Gilbert.)

22.9.03

SE ELES SÃO BONITOS, SOU ALANDELÃO

Já que falei de gente que gosta de usar chapéu de Napoleão, aproveito para mencionar duas histórias de pessoas à frente do seu tempo -uma, do século 19; a outra, nossa contemporânea. Visitando o Apeirophobia, vocês podem conhecer Norton I, o autoproclamado Imperador dos EUA e Protetor do México (mais detalhes aqui). E, passeando pelo Morfina, vocês terão contato com toda a genialidade de Damião Experiença, esse Carlinhos Brown sem mídia e, às vezes, sem teto. Damião também não tem a respeitabilidade acadêmica obtida por gente como Arthur Bispo do Rosário e o chatíssimo Qorpo-Santo. Convém ouvi-lo antes que ele vire tema para tese de doutorado -ou fugir dele, você escolhe.

21.9.03

DE NAPOLEÃO A PEREIO EM 30 SEGUNDOS

Fui ver, alguns dias atrás, a exposição sobre Napoleão que está na Faap, aqui em São Paulo. Irresistivelmente atraído por miudezas e desimportâncias, fiquei um tempão contemplando o chapéu de feltro do imperador, adereço favorito de nove entre dez louquinhos, e sua nécessaire de higiene bucal, com espátulas para tirar o tártaro dos dentes e outras mumunhas mais. Concluí que Napoleão foi o único francês que gostava de tomar banho, o que certamente se explica pelo fato de ele ter nascido na Córsega.

Mas legal mesmo, depois de ter visto o serviço de jantar em porcelana de Sèvres da imperatriz Josefina, foi visitar o rabo da exposição -uma salinha, nos fundos, com relíquias da família real lusitana na época de sua fuga para os trópicos. Foi só pôr os olhos no sensual camisolão de dom João VI e em uma espada enferrujada para que aquele "Brasil-sil-sil" das transmissões esportivas da Globo ecoasse na minha cabeça. Só posso concordar com a sugestão do Jean: toda a história deste país se desenrolou para culminar com o Pereio na presidência. Chegaremos lá.

18.9.03

CRIANÇAS, NÃO FAÇAM ISSO EM CASA

Tive, faz pouco tempo, uma experiência semelhante àquelas do Aldous Huxley com mescalina: descobri que a careca de Artur da Távola tem poderes alucinógenos. Sintonizei a TV Senado, em que o senador apresenta um programa sobre música erudita, e fiquei olhando fixamente para a sua calva enquanto ele engrolava uma conversa, de fortíssimo poder hipnótico, sobre a genialidade de Mozart. Em vez de eu cair no sono, que é o que costuma acontecer, minhas portas da percepção foram abertas: percebi que André Previn e Olavo de Carvalho são a mesma pessoa (e, de fato, era Olavo quem gesticulava diante da orquestra). Compreendi que, batendo todos os personagens do Almodóvar no liqüidificador, você obtém um Cauby Peixoto dublado nos estúdios da Televisa. Por fim, toda a história da MPB nos últimos 35 anos passou diante de meus olhos -era o conteúdo do penico de Rogério Duprat na foto da capa de "Tropicália". Nunca mais quero passar por uma bad trip dessas. Mantenham o Artur da Távola longe das crianças.
LET'S GET PATAPHYSICAL

Seguem algumas soluções de inspiração patafísica para São Paulo. Os leitores paulistanos deste blog podem escolher uma das três seguintes opções: 1) A menos dispendiosa é ter em mente que você não vive em São Paulo, mas no castelo de Caras; requer só um pouquinho de imaginação. Qualquer taxa será o justo preço a pagar pelo luxo e pela riqueza circundantes. Isso também ajuda a compreender a importância política de colocar ou não dois noivinhos em cima do bolo de casamento da prefeita. 2) Dar a condução dos destinos da cidade aos taxistas (que, afinal, têm solução para todos os problemas da cidade, do Brasil e do mundo, dependendo do tamanho da corrida) e colocar os vereadores para conduzir os táxis. Convém apenas ponderar que um táxi dirigido por vereadores levaria, no mínimo, 20 pessoas cada um -e você não caberia nele. Além disso, uma vez no poder, é possível que todos os taxistas renunciem em favor do Maluf. 3) Realizar os sonhos de Oscar Niemeyer e concretar a cidade toda. Que aquela abominação chamada parque Ibirapuera e outras semelhantes sumam, que não reste mais um centímetro quadrado de mato. Viveremos todos num Memorial da América Latina gigante.

16.9.03

VAMOS GODARD OUTRA VEZ

Finalmente, a moça consentira em visitar o apartamento do cinéfilo. Ele se Kurosawa de ansiedade. Preparou um belo jantar à luz de velas: carpaccio de Fellini na entrada, Pasolini ao molho pardo como prato principal e uma garrafa de Dreyer. Ao soar da campainha, abriu a porta: a musa, toda Lang em um vestido novo, estava linda de Oshima a baixo. Bastou vê-la para que ele, que já havia bebido um pouco, se sentisse cada vez mais Wilder. Seus pensamentos resumiam-se a um só: Coppola. Não se conteve e a agarrou. Foi aí que o cinéfilo se Truffaut: levou um tapa na cara e ainda ouviu um “vá tomar no Kubrick” da mocetona indignada. Bem, Wim Wenders e aprendenders: não é preciso ser nenhum Eisenstein para saber que um cinéfilo tarado sempre se Ford.

15.9.03

BLOG NÃO É VIDA

Mas quem quer saber de vida, ora essa? Se eu fosse um aristocrata, diria, como o Axel do Villiers de l'Isle Adam: "Viver? Os criados farão isso por nós". E pagaria alguém para correr a maratona, beber isotônicos e ser saudável por mim. No fucking way. Obrigam-me a pôr o nariz para fora de casa se quero comprar o que é essencial: goiabinhas da Galeria dos Pães, café, CDs de Haydn e Agnaldo Timóteo, cinco ninfas peladas. Ou vestidas, mas jogando strip-batalha-naval comigo diariamente. Claro, não tenho nada que se pareça com uma ninfa aqui no armário das vassouras -e essa é a única, estão ouvindo?, a única razão que me impele a uma atividade vulgaríssima como trabalhar. Dizem, porém, que há algumas modalidades de subsídio estatal que incluem mocetonas pudibundas em pêlo. Preciso começar a falar bem do Efelentífimo.

12.9.03

O ATAQUE DOS VERMES DE OUVIDO

Segundo aquele sósia nazistófilo do Carlos Heitor Cony, a língua alemã facilita a criação de conceitos filosóficos. É verdade -e não só no que diz respeito à filosofia. Os alemães têm em seus dicionários vocábulos que equivalem a, no mínimo, quatro palavras ditas por um lusoparlante. Dois ótimos exemplos são Schadenfreude, que é o prazer obtido com a desgraça alheia (sim, trata-se do popular "pimenta no ônus da prova dos outros é refresco"), e Torschlüsspanik, "medo que as moças solteiras sentem quando começam a passar da idade de casar". Viram só? Uma palavra em alemão, catorze em português. Aviso às Glorias Steinems de plantão que a última frase entre aspas não é minha, mas de um ótimo texto do Sérgio Augusto, cuja leitura recomendo.

O artigo de Sérgio, contudo, não cita uma das minhas palavras alemãs preferidas, que é Ohrwürm. Literalmente, ela significa "verme de ouvido" e é usada para designar aquela música pegajosa -e, na maioria dos casos, muito ruim- que você não consegue parar de cantar ou assobiar. É raríssimo que meus vermes auditivos sejam alguma coisa como o tema do concerto para violino em mi menor, opus 64, de Mendelssohn (bastante assobiável, aliás).

Meu primeiro Ohrwürm desta semana foi uma música bem "silly" de Paul McCartney, especialista em compor vermes pegajosos ("I light a candle to our love, in love our problems disappear..."). Daí por diante, só piorou: o seguinte foi uma música do Fofão, aquele boneco com cara de testículo ("quá, quá, quá, que engraçado é..."). Ela sumiu do meu cérebro apenas quando eu me lembrei de um sucesso de Luiz Caldas ("desmatar florestas, fazer queimada/ é burrice, não tá com nada"). Percebi que o caso era gravíssimo ao me dar conta de que, em pleno escritório, eu balançava os braços no ar ao cantar isso. Sim, foi constrangedor, amiguinhos.

Faltam estatísticas sobre os danos físicos e morais provocados pelos vermes auditivos. Mas acho que eles podem ser uma arma poderosa na minha estratégia de dominação mundial. Eu mesmo já fiz duas pessoas cantarem "Love and Marriage", do Frank Sinatra, comigo -e agora elas não conseguem tirar o Al Bundy da cabeça.

11.9.03

COM CARA DE CINEMA NACIONAL

Vou confessar aqui uma coisa que eu não deveria dizer nem ao médium depois de morto, para citar mais uma vez o tarado de pijama: eu não gostei dos documentários sobre Nelson Freire e Paulinho da Viola. E sabem por quê? Porque eles poderiam ter sido feitos em qualquer outro lugar -não têm cara de cinema brasileiro. Se eu fosse João Moreira Salles ou Izabel Jaguaribe, incluiria pelo menos duas cenas nos seus respectivos filmes: 1) Paulo César Pereio, de camisa aberta quase até o umbigo e copo de uísque na mão, observando Freire tocar e gritando: "Porra, cara, tu toca bem pra caralho! Não é porque tu é meu amigo, mas puta que pariu, que coisa linda!". Na falta de Pereio, Joel Barcellos também serve. 2) Aldine Müller de quatro, na frente de Paulinho -que dedilha, calmamente, seu violão-, passando a língua pelos lábios e dizendo "me chama de puta". Tradições tão nobres merecem ser mantidas.

10.9.03

REMINISCÊNCIAS GOIABAIS (3)

No início da adolescência, eu já suspeitava de que o mundo fosse um lugar absurdo. Mas só tive absoluta certeza disso quando vi Markinhos Moura, de bandana e camisetinha regata, cantar "Meu Mel" no programa do Chacrinha. Dali por diante, nada mais faria sentido. O Brasil da primeira metade dos anos 80 era um país cujas rádios tocavam Byafra e Dalto todo dia -e ninguém parava para se perguntar que diabos aquilo queria dizer. Músicas que falavam em "faunos lunares" e continham trechos como "dentro do bombom há um licor a mais" e "ninguém vai dormir nossos sonhos" pareciam fazer parte da ordem natural das coisas (levou tempo até que eu apreciasse o experimentalismo lingüístico de Dalto, que adorava transformar verbos intransitivos em transitivos diretos. Vide também, a esse respeito, "seus olhos são espelhos d'água brilhando você pra qualquer um"). Em suma, ninguém que tenha parado para ouvir "meu mel, não diga adeus" consegue, depois, chegar a Heidegger e ao dodecafonismo. A civilização não foi feita para nós.

9.9.03

REMINISCÊNCIAS GOIABAIS (2)

O futebol foi minha primeiríssima paixão não correspondida. E o foi em grande estilo, para estabelecer um padrão: jamais pude entender as bolas Penalty e as mulheres. Eu não conseguia chutar a gol, fazer passes decentes ou marcar meus adversários sem ser atropelado por eles. Também não corria muito, por causa da bronquite: com 15 minutos de jogo, meus pulmões quase saíam pela boca. Muito cedo os coleguinhas perceberam que eu dava menos prejuízo aos times se jogasse no gol. Foi ali que me tornei um precoce e espinhento existencialista, mas essa é outra história, que eu talvez conte mais tarde. Digo apenas que sei muito mais que o Wim Wenders sobre o medo do goleiro diante do pênalti.

O futebol (de salão) também foi meu primeiro contato com a existência do Mal: o Moleque Feladaputa que Pisava na Pinha. No colégio, nem sempre tínhamos bolas Penalty para jogar -perdiam-se, furavam no primeiro chute, algum dos diretores escondia, não sei. Mas havia pinheiros, e seus frutos permitiam alguns instantes de diversão -isto é, até que o Moleque Feladaputa que Pisava na Pinha chegasse e acabasse com a brincadeira. Volta e meia um desses seres me aparece; nem sempre tenho outras pinhas à disposição, como nos tempos do colégio. Então, faço o melhor que posso para driblá-lo. Quem sabe um dia eu construa o Mausoléu do Moleque Feladaputa que Pisava na Pinha Desconhecido, só para fazer nele o mesmo que Byron recomendava que se fizesse sobre os restos mortais do lorde Castlereagh: tirar uísque do joelho.

8.9.03

REMINISCÊNCIAS GOIABAIS (1)

Em 1985 descobri a política como freak show (minha opinião, 18 anos depois, é essencialmente a mesma). Esse foi o ano das primeiras eleições diretas para a prefeitura de São Paulo desde a década de 60. Melhor: na TV, foi a primeira propaganda eleitoral sem as restrições da Lei Falcão, aquela que só permitia a exibição de fotos dos candidatos, com uma locução "off". Bastou o primeiro horário gratuito para que todos sentissem saudade dessa lei.

Eu tinha 15 anos e ainda não podia cumprir o dever cívico de corroborar aquele teatrinho, mas me divertia à grande com o horário eleitoral. Havia os candidatos que despontaram para o anonimato, como Ruy Côdo e Antônio Carlos Fernandes (esse, se não me engano, apareceu na capa da "Veja em São Paulo" dizendo ser o pior vereador da cidade -recorde, certamente, já superado inúmeras vezes). Havia Pedro Geraldo Costa, o poeta do TRE, que gostava de falar tudo rimado -"uma flor no peito, Pedro para prefeito"-, mas, prudentemente, evitava rimas com seu sobrenome. Havia Armando Corrêa, o candidato dos "explorados". E havia, sobretudo, Rivailde Ovídio. Ele aparecia em close na tela, de óculos e orelhas de abano, gritando "onde está você, Franco Montoro [então governador]?". Em outro trecho da propaganda, Ovídio fazia gestos de desprezo em direção ao Palácio dos Bandeirantes. Inesquecível. É claro que, na eleição simulada feita por meu colégio, eu e meus amigos sufragamos Rivailde Ovídio.

Os eleitores paulistanos, na época, preferiram o freak profissional Jânio Quadros, que superou Efe Agá e Supla pai (apesar do engenhoso uso de uma tartaruguinha e uma lebre de brinquedo, por parte do último, num dos debates). Eu mesmo quase votei nele no simulado -perto da minha casa, alguns cartazes de Jânio asseguravam que ele era um candidato "experiente e suruba". Pensei "nossa! O velhinho, além de chegado na manguaça, é pornógrafo assumido! Merece meu voto". Fiquei decepcionado quando soube que "suruba", na época dos paleolíticos assessores de Jânio, era sinônimo de "batuta", "supimpa" ou algo assim. Poucos anos depois, Maquiavel e seu livro pornográfico me fizeram compreender que a polititica era assim mesmo.

5.9.03

RETRATOS PSICOLÓGICOS DO BRASIL

Clique nos linques. Ou não.

1. O inconsciente reprimido

2. O superego

3. História da inteligência brasileira

Pouca Aracy e muito Sarney Timóteo, os males do Brasil são.

4.9.03

O NOME DE NEVILLE É PODEROSO

Graças ao meu amigo alexandrino Felipe Ortiz, fiquei sabendo que, assim como o ex-raimundo Rodolfo e a apresentadora do "Noite Afoda", Monique Evans, Neville d'Almeida, esse gênio do cinema brasileiro, freqüenta uma igreja evangélica. Bom para ele -sempre achei que Dante deveria ter reservado um círculo do seu inferno para os péssimos cineastas. Mas em verdade vos digo: se o renascido Neville virar um Orson Welles, também me converterei. Milagres têm de ser reconhecidos quando se manifestam.

2.9.03

SOLTANDO O RUBENS DE FALCO

Às vezes penso que todos os seres que têm um blog já citaram algum dos numerosos clichês sobre o ato de escrever e sobre aquele sentimento que é nome de paçoquinha. No segundo caso, o meu chavão preferido é, como vocês sabem, "o amor é como uma flor roxa, só nasce em coração de trouxa" (uma lição das Gotas de Pinho Alabarda que carregarei por toda a vida). Mas senti falta de algum lugar-comum interessante sobre escrevinhação. Aqui vai, portanto: o escritor é um Rubens De Falco do vernáculo. Trata as palavras como se fossem Lucélia Santos. Embrenha-se no mato atrás dos vocábulos fugidos e, quando os recaptura, faz o chicote cantar no lombo deles. Essa crueldade não impede, contudo, que o escritor se deite com algumas palavras. O fruto dessa conjunção verbal são livros -que sairão de casa assim que conseguirem andar sozinhos, vão encher Rubens De Falco de desgosto e podem terminar por matá-lo. Melhor ficar só com a paçoquinha.

1.9.03

INVEJA DO ROQUENROL

Confesso a vocês: assim como Piza na Bola odeia a religião porque ninguém faz o sinal-da-forca antes de entrar numa igreja, eu odiava o roquenrol por ser absolutamente incapaz de tocar algum instrumento (fiquem tranqüilos: não citarei aqui aquela piadinha do "só toco órgão", embora isso seja verdade). Ora -direis-, até aí, 90% dos roqueiros também são incapazes; no entanto, é assim que eles ganham a vida e um monte de mulé, com um desperdício neuronal mínimo. Só que eu estou alguns graus acima na escala Richter da inabilidade instrumental: nem o riff de "Louie, Louie" ("dã-dã-dã, dã-dã, dã-dã-dã, dã-dã...") eu sei reproduzir.

Contudo, admito que o roque é a música mais democrática que há. Como dizia Paulo Francis, nem é preciso ser animal vertebrado para produzi-lo. Assim, até goiabas podem fazer roquenrol -e eu adoraria ter sido um destes superastros: 1) Bez, aquele integrante dos Happy Mondays -grupo inglês da virada dos anos 80 para os 90- que não tocava instrumento algum. Ficava chacoalhando no palco e, segundo a banda, era responsável pelas "vibrações". 2) O cara que tocava, com dois dedos, o órgão (hum...) em "96 Tears", clássico obscuro de ? and the Mysterians -o nome da música e o do grupo estão entre meus preferidos- e o mais improvável primeiro lugar na parada da Billboard (em 1966, mesmo ano de "Wild Thing" e "Strangers in the Night"). 3) O sujeito responsável por gritar "science!" em "She Blinded Me With Science" , do Thomas Dolby (pois é, ninguém passou pelos anos 80 impunemente).
A PENSÃO DA DONA ASSUNTA

Devo, mais uma vez, desculpas aos leitores que deixaram comentários aqui depois de terça-feira, 26 de agosto. Todos eles, com os posts que escrevi até ontem, foram apagados em mais um dos problemas que tivemos -eu e os outros wunderbloggers- com a hospedagem da Nitelands. Consegui recuperar os textos, mas não os comentários. Sinto-me pior do que se estivesse hospedado na pensão da dona Assunta, na Bela Vista: lá falta luz o tempo todo, mas a proprietária jamais teria a cara-de-pau de atribuir a culpa aos fregueses. Fujam da Nitelands: é o que faremos em breve.